Capitulo I - Tere Vend







                                                                 

 

          "Nada devem saber a meu respeito, a não ser o livro intitulado 'Talvez fosse magia', mas isso pouco importa. Este livro foi escrito pelo Senhor André Vilaça, com base nos meus diários e nos de Yui, que a Senhora Minamoto amavelmente emprestou ao escritor. Uns dias depois de lançar o livro sobre o meu amor por Yui, ele veio visitar-me em casa, na Foz, e perguntou se eu podia falar sobre a minha viagem ao Japão. Pedi ao Senhor André Vilaça se eu poderia ser o autor dessa parte da minha vida, pois, desde a partida prematura de Yui, nunca mais escrevi no meu diário, e André amavelmente aceitou.
Meu nome completo, que consta na folha de batismo, é Lorenzo Daniel Coelho Pellegrini. Nasci na cidade do Porto, após meu pai ter emigrado para a cidade invicta nos anos 60. Minha mãe é portuguesa, natural da Foz do Douro, e meus avós não ficaram contentes por terem um genro italiano. No entanto, o amor supera tudo, e eles ainda estão juntos após 45 anos. A família do meu melhor amigo, Baruto, veio de longe, da Estônia. Já visitei lá uma vez e gostei da vila onde vivia a avó materna dele. Durante a estadia, adorei os dias frios, especialmente a neve. Aprendi a falar estoniano rapidamente ao conviver com a família Baruto nos jantares aos quais era convidado. Ele contou que em casa falava estoniano, mas fora dela, como na escola ou mais tarde na universidade, falava português.
A segunda cultura que conheci e gostei de aprender, quando comecei a namorar Yui, foi o japonês. Não vou falar do meu amor por Yui, pois o escritor André Vilaça já o descreveu em seu livro. Após perdê-la, o que me ajudou a superar o luto foi passar um ano com a família de Yui no Japão. Por causa da saudade de minha mãe, retornei a Portugal. Contudo, não era feliz no país, e é aí que minhas memórias começam.
Quando escrevia no meu diário, colocava no topo da página a data e a cidade em que vivia, começando a descrever meu dia. No entanto, desta vez, é um livro de memórias. Nunca escrevi um antes; não é como escrever um diário, algo íntimo que imaginamos que ninguém lerá até morrermos. Certa vez, perguntei a Takeshi o que aconteceu em 11 de março de 2011 em Sendai, querendo saber o que realmente aconteceu com Yui. No entanto, ele estava tão traumatizado que, segundo sua mãe, nem ao psicólogo conseguia contar o que aconteceu no trágico evento. Ele bebia saquê para esquecer esse terrível dia, e um dia, cansada de vê-lo bêbado, sua mãe tirou-lhe toda a bebida de casa. Assim, todas as noites, ele começava a lembrar-se das memórias pesadas, gritando à mãe pedindo saquê para esquecer. Lembro-me de estar no meu quarto de hóspedes e ouvir seus gritos de pânico. 'Quero saquê, não aguento essas memórias que me atormentam'. Era como se a casa dos Minamoto fosse assombrada naquela hora, e o fantasma era uma pessoa humana que caía em suas memórias atormentadas. Depois, ele foi para um mosteiro budista em Tóquio, onde teve ajuda de um monge e foi se recuperando aos poucos. Quando parti, ele estava tão diferente. Pelo que sabia de Yui, os Minamoto eram budistas xintoístas, acreditando em Buda e na religião japonesa. Antes de ir embora, Takeshi prometeu-me que, quando eu retornasse um dia, saberia o que aconteceu no dia do acidente, e agora, ao pensar nisso, percebo que ele cumpriu sua promessa.
Quando cheguei em casa, não a reconheci. Meus pais ficaram felizes por me ver, retornei ao meu quarto, deitei-me na cama e fiquei lá. Não sei explicar, mas nunca chorei por Yui, nunca fiz o luto como Takeshi, que a amava mais do que eu. Baruto entrou no meu quarto de relance e abraçou-me, sem se importar que eu, como alguém com Asperger, odiava ser abraçado por quem quer que fosse. Ele olhou para mim, passou a mão pelo meu cabelo enorme e, quando eu ia reclamar, como sempre fazia desde que éramos amigos, ele disse-me em estoniano:
  • Tere Vend (olá irmão)."

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