Capitulo V - posso entrar Guru

      Hoje fui renovar a carta de condução. Com 40 anos, exigiram a renovação, algo que eu pensava ser necessário só aos 65. O Dr. Tomás Pinto emitiu um atestado médico confirmando que eu, apesar do autismo, era apto para conduzir e não representava perigo nas estradas. Sempre amei dirigir. É uma das poucas coisas em que me sinto comum, normal. Pego o Mini do meu pai e saio sem destino, perdendo-me em ruas desconhecidas até voltar para casa, guiado pelo instinto.
       Na escola de condução, uma nova funcionária me atendeu. Meu nome italiano, Lorenzo, e o leve sotaque herdado do meu pai, de Verona, confundiram-na. Tive que explicar que nasci em Portugal, mas ela logo desviou a conversa para Verona, Romeu e Julieta. Não que tivesse lido Shakespeare — mencionou o filme com Leonardo DiCaprio e Claire Danes. Ao ler meu atestado médico, lançou-me um olhar desconfiado, como se duvidasse que um autista pudesse dirigir. Ignorei, desviando os olhos, fingindo que suas palavras não me atingiam. Assinei os papéis, ela informou que a carta chegaria pelo correio e, com um tom de “próximo”, me dispensou.
       Liguei para Baruto ao sair, brincando:
       — Até os 65, vou continuar sendo um perigo na estrada!
     Ele respondeu com um emoji chorando de rir, e eu mandei um sorridente. Entrei no Mini, olhei o banco vazio ao lado e pensei em Yui. Um sorriso escapou. Liguei o rádio, e a música “Saudade”, do açoriano João Moniz, começou a tocar. Cantei baixo enquanto dirigia para casa, sentindo a nostalgia de pessoas e lugares que marcaram minha vida.

Nessa semana, uma tragédia abalou o mundo: a Catedral de Notre-Dame, em Paris, pegou fogo ao fim do dia. Eu assistia à TV, preocupado, quando recebi uma mensagem de Baruto:

“Lá se vai a casa do Corcunda.”

       A mensagem trouxe à tona memórias de uma viagem com Yui a Paris. Corri ao quarto, revirei os armários e encontrei minha câmera de filmar, intocada desde que ela se foi. Tirei o cartão de memória, liguei no computador e me deparei com milhares de fotos que Yui tirou em sua curta vida. Ao encontrar as de Paris, cliquei em cada uma, detendo-me numa em que fazíamos biquinhos com Notre-Dame ao fundo. Salvei a imagem.

       No Facebook, vi comentários cínicos, de pessoas que só lembram da fome na África em momentos de tragédia, como se uma perda histórica como Notre-Dame diminuísse outras dores. Irritado, respondi com emojis zangados: “Vocês só se lembram das crianças na África quando convém. Depois, que se foda as crianças. Tenho dito.” Postei a foto com Yui e Notre-Dame ao fundo e saí da rede, cansado de tanta hipocrisia.
         Voltei às fotos e achei um vídeo que Yui gravou na entrada da catedral. Corri ao WhatsApp e convidei a mãe de Yui, Sra. Minamoto, e Fátima para virem à minha casa à noite. Queria compartilhar algo especial sobre Yui. Elas confirmaram.
        Minha mãe preparou um jantar caprichado, mas as convidadas, tímidas, disseram que vieram só pelo vídeo. A Sra. Minamoto, que superou o luto pela filha, trabalhava num hotel no Porto desde os anos 80, onde chegou com Yui, então com 13 anos. Ela falava várias línguas e atendia turistas do mundo todo. Às vezes, Yui e eu conversávamos em japonês para ter privacidade, o que irritava Baruto, que resmungava sobre “segredos”. Meus tios franceses faziam o mesmo, falando em francês para excluir os outros.
      Na sala, liguei a pen drive na TV. Quando a voz de Yui ecoou, meu coração parou.
        — Está a filmar, Lorenzo? — perguntou ela no vídeo.
         — Sim — respondi, minha voz jovem ecoando.
         Yui apareceu, sorridente, filmando a entrada de Notre-Dame.
         — Aqui estamos em Notre-Dame — disse, fazendo uma careta. — Agora vamos ver se podemos entrar. A Fátima veio cá e disse que é como… como se chama a catedral de Barcelona, Lorenzo?
            — Sagrada Família — respondi no vídeo.
           — Sim, mas não vejo filas, acho que podemos entrar sem esperar.
          Meu peito tremia enquanto assistia. Mentalmente, implorei para o vídeo não acabar. Então, Yui falou:
          — Vou desligar, não sei se posso filmar lá dentro. Anda, Lorenzo.
          — Sim — respondi no vídeo.
           Ela sorriu para a câmera e desligou. Em seguida, apareceram fotos nossas em Paris. À noite, revi o vídeo no celular, coloquei-o de lado e adormeci.
           No sonho, vivi o que o vídeo não capturou: entramos em Notre-Dame, falamos baixo, respeitando os fiéis. Yui me puxou e me beijou, e ficamos ali, abraçados, num momento que parecia eterno.~

No trabalho, minha rotina seguia firme. Eu era caixa no Lidl de Lordelo do Ouro. Graças a Baruto, voltei aos estudos, concluí o 12º ano e consegui o emprego. Passava as compras, perguntava:

— O contribuinte vai ser necessário?

— Não, obrigado — respondeu o cliente.
       Informava o preço, recebia o pagamento, entregava o troco e o recibo, repetindo o ciclo.        

          Quando não estava no caixa, organizava prateleiras, alinhando tudo com precisão. Minha chefe gostava do meu capricho.
         Fiz amigos, como Raja, um indiano obcecado por sexo e piadas picantes. Quando ninguém via, ele fazia gestos ousados com as colegas, e eu ria, até ouvir outra caixa dizer:
        — Não te rias do parvo do Raja!
        — Desculpa, mas não consigo! — respondia, rindo.
        Raja, filho de um professor universitário indiano, veio para Portugal atrás de uma vida melhor. O pai, rígido, nunca lhe deu mesada, dizendo: “Quer dinheiro? Trabalha.”           Assim, Raja acabou no Lidl enquanto estudava.

Voltei ao dojo do Byakko, envergonhado. Nos vestiários, troquei-me para o uniforme de Kombatan, peguei os bastões e, cabisbaixo, perguntei ao meu Guru:

— Guru, posso entrar?
— Lorenzo, voltaste! — exclamou ele, sorrindo. — Sim, podes entrar.
          Treinamos com os bastões, e ele perguntou sobre o Japão. Contei que gostei de alguns lugares em Tóquio, mas outros ainda não conhecia. Após o treino, fiz uma vénia:
        — Posso sair, Guru?
        — Sim, podes! — respondeu, sorrindo.
        Evitei o banho no dojo por timidez, saí com o uniforme e dirigi para casa. No banheiro, nu diante do espelho, encarei meu corpo. Estava gordo. Se não emagrecer, vou acabar lutando sumô com o Guru, pensei, rindo. Tomei banho ouvindo Rui Veloso no telemóvel, sentindo-me renovado.
           Ao sair do quarto, recebi uma mensagem de Baruto no WhatsApp:
    “Queres almoçar cá em casa, ver teu afilhado e jantar conosco?”
       Não gosto de sair da minha zona de conforto, mas tempo com Baruto é sagrado. Respondi:

“Podes contar comigo!”

 

 


 

 

 

 

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