Capitulo IV - A Small Measure of Peace
Cheguei em casa exausto, o peso do dia ainda nos ombros. Fui direto ao frigorífico, peguei o sumo de laranja que preparo todos os dias e bebi, tentando acalmar a mente. Minha mãe entrou na cozinha e, ao me ver cabisbaixo, disse com aquela sabedoria que só as mães têm:
— Filho, tens de deixar esse sentimento ir embora, ou nunca terás paz.
As palavras me acertaram como um soco, mas eu não queria ouvir. Teimoso, retruquei:
— O que a mãe quer dizer com isso? Estou cansado de todo mundo se meter na minha vida.
— Filho, eu só digo isso pelo teu bem — respondeu ela, e vi lágrimas escorrerem pelo seu rosto. — Não quero que entres numa depressão outra vez. Por favor, deixa o passado pra trás, tudo que te perturba.
— Eu não preciso ouvir isso, chega, porra! — explodi, marchando para o quarto.
Fechei a porta com força e, encostado nela, desabei. Pela primeira vez em muito tempo, chorei, o corpo tremendo contra a madeira. Queria que Yui estivesse do outro lado, com aquele jeito dela de me botar nos eixos. As lágrimas caíam, e eu me sentia pequeno, perdido.
— Lorenzo, abre a porta, por favor — a voz de Baruto me arrancou do torpor. — Estás bem, amigo?
— Ah, o quê? — murmurei, confuso, percebendo que tinha adormecido no chão, exausto de tanto chorar. — Está aberta, Baruto.
Levantei-me, o corpo dolorido, e ele entrou, franzindo a testa ao me ver.
— Estavas a dormir no chão?
— É o meu novo hobby — brinquei, tentando aliviar o clima. Então, num impulso que nem eu esperava, eu, que detesto abraços, me joguei nos braços dele. Baruto ficou parado, surpreso, enquanto eu me agarrava a ele. Quando o soltei, enxuguei as lágrimas e murmurei:
— Obrigado.
Ele me olhou, boquiaberto, como se pensasse: Ele me abraçou!. Aliviado, sorri e provoquei:
— Não te vás habituando.
Baruto, vendo que eu estava melhor, despediu-se mais tranquilo. Sozinho, coloquei um CD do Motohiro Hata, e as músicas dele me encheram de uma leveza que eu não sentia há dias. Cantarolei, mais leve, como se o choro tivesse lavado algo podre dentro de mim. Naquele momento, eu tinha planos, vontades, uma centelha de esperança.
Deitei-me na cama com a tablet e abri meu site favorito de animes. Encontrei um novo, baseado na mangá do Takeshi Minamoto, Cabeça de Tigre. A primeira temporada estava online, e eu, sem nada melhor para fazer, cliquei no primeiro episódio. A abertura, com “Arigato Baikko” do Sambomaster, me pegou de cara. O anime era fiel à mangá, com alguns fillers para esticar a história, mas bem feitos. O primeiro arco girava em torno do filho de um arqueólogo que herda uma máscara hindu e busca vingar o assassinato do pai. Como sempre, a temporada terminou com o primeiro vilão derrotado e pistas para um novo antagonista, deixando aquele gostinho de quero mais.
Empolgado, peguei o celular e mandei uma mensagem no WhatsApp para Takeshi, dizendo o quanto adorei o anime. Ele respondeu com dois corações, e eu mandei um emoji sorridente. Coloquei o telefone de lado, voltei a ouvir Motohiro Hata e me deixei levar pela música, sentindo, pela primeira vez em muito tempo, que talvez as coisas pudessem melhorar.

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