Capitulo III - O Tom irá estar aqui para te ajudar.

Era uma quarta-feira, meu primeiro dia de volta ao consultório do Dr. Tomás Pinto desde que retornei do Japão. A ansiedade me mordia enquanto esperava, sem saber ao certo o que dizer. Talvez ele quisesse saber sobre o Japão, ou talvez fizesse aqueles exercícios que sempre conectavam os pontos soltos da minha cabeça. O Sr. André Vilaça, no livro Talvez fosse Magia, não contou como conheci o Tom, meu velho amigo Tom. Tudo começou com um amor que me devastou. Minha técnica, com acusações sem base, me proibiu de amar, e o peso disso me jogou numa depressão que só o Dr. Tomás conseguiu aliviar.
Cheguei ao consultório e fiz um aceno tímido para a secretária, que me indicou a cadeira. Sentei, o coração acelerado, até que ele apareceu: cabelo curto, barba bem aparada, óculos novos, mas ainda com aquele seu jeito rechonchudo que o tornava familiar. Ele sorriu e fez sinal para entrar.
— Conta-me coisas — disse, com aquele tom acolhedor. — Como está o Baruto?
— Está bem! — respondi, já me soltando. — No dia que voltei a Portugal, fizemos as nossas noitadas.
— Adoro quando falas dessas noitadas — disse ele, genuinamente animado. — Comeram ramen feito pelo Baruto?
— Não, desta vez foi o jantar da minha mãe. Mas vimos o filme da Yui — falei, sorrindo ao lembrar.
A Sombra do Samurai? — perguntou ele, já conhecendo a história.
— Sim, uma história engraçada — disse, empolgado. — Posso contar?
— Força nisso — incentivou ele, recostando-se na cadeira.
— Peguei uma pen no meu quarto, sem saber o que tinha. Quando coloquei, era o filme dela. — Dei uma risada e provoquei: — Pior seria se fosse um filme adulto.
O Dr. Tomás tossiu, visivelmente desconfortável. Ele nunca lidava bem com assuntos íntimos. Já tentei falar sobre sexo, até sobre masturbação, mas ele sempre ficava vermelho e mudava de assunto. Nunca entendi por quê.
— Mudando de assunto — disse ele, recompondo-se. — O que fizeram depois?
— Falei com o Baruto até cansar. Gosto de brincar com ele, dizer que sou contra alguma coisa ou chamá-lo de “russo”, só pra irritar. Ele odeia — contei, rindo.
O Dr. Tomás sorriu, mas logo mudou o tom, mais sério:
— Ainda queres continuar com as sessões? Prosseguimos com os treinos de ir às compras e essas coisas?
Fiquei quieto por um segundo, sentindo o peso da pergunta. Então, abri o coração:
— Muito, Dr. Tomás. Se não fosse pela sua terapia, não sei onde estaria. Tenho medo de cair na depressão outra vez. Desta vez, não tenho a Yui nem o Baruto por perto como antes. Só me resta o senhor, meu amigo Tom.
Ele sorriu, os olhos brilhando com um misto de orgulho e carinho.
— Sim, o Tom! — repetiu, ecoando o apelido que dei a ele. — O Tom estará sempre aqui para te ajudar.
Saí do consultório mais leve, como se o peso do mundo tivesse, por um momento, ficado lá dentro, com o Tom.






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