Capitulo II - O filme “a sombra do Samurai”
A noite já caía quando Baruto chegou, com aquela presença que enchia o espaço sem esforço. Ele não mudou muito desde os tempos em que era apenas um garoto desengonçado, alto, com cabelo castanho desgrenhado e uma barba que agora exibia suíças brancas, contrastando com os olhos azuis, tão claros que pareciam refletir o mar que seu nome evocava. “Baruto”, ele me explicou uma vez, significava “Mar azul do Báltico” em japonês, uma ironia para alguém que detestava ver seu nome confundido com “Naruto” pelo corretor automático. Engenheiro numa multinacional, ele costumava rodar o mundo, mas agora, casado com Fátima e pai, as viagens rarearam, e ele parecia mais ancorado, mais sereno.
Olhei para a segunda cama no meu quarto, vazia desde que ele se casou, e joguei a pergunta no ar, quase como um desafio:
— Vens fazer uma sessão de cinema?
Ele sorriu, balançando a mochila que trouxe como quem carrega um plano.
— Sim, os miúdos estão com a avó, e a Fátima saiu com as amigas. — E, com aquele jeito despreocupado, jogou a escolha do filme para mim: — Não sei, escolhe tu.
Revirei uma gaveta e achei uma pen drive, sem a menor ideia do que tinha nela. Ri sozinho, torcendo para não ser nada constrangedor. Guardamos a pen no bolso e fomos jantar com minha mãe, que sempre teve um carinho especial por Baruto. Ela o via como o protetor dos tempos de escola, o cara grandalhão que afastava os valentões com um olhar. Durante o jantar, rimos como antigamente, e minha mãe, com aquele tom meio culpado, pediu desculpas por eu “incomodar” Baruto com essas noitadas. Ele apenas riu, dizendo que gostava, mas que o tempo agora era curto. A conversa fluiu até o sino da igreja marcar as nove da noite.
— Vamos ver o filme? — Baruto perguntou, já se levantando.
— Vamos — respondi, sentindo uma animação quase infantil.
Na sala, pluguei a pen na TV e me sentei ao lado dele. Quando no ecra revelou Sombra do Samurai, meu coração apertou. Era o filme que vi com Yui, numa fase pesada, quando Baruto estava em Coimbra e eu me afogava em saudades. Uma lágrima escapou, e eu a enxuguei rápido, antes que ele notasse. O filme terminou, e Baruto, com um aceno de aprovação, perguntou:
— Vens fazer uma sessão de cinema?
Ele sorriu, balançando a mochila que trouxe como quem carrega um plano.
— Sim, os miúdos estão com a avó, e a Fátima saiu com as amigas. — E, com aquele jeito despreocupado, jogou a escolha do filme para mim: — Não sei, escolhe tu.
Revirei uma gaveta e achei uma pen drive, sem a menor ideia do que tinha nela. Ri sozinho, torcendo para não ser nada constrangedor. Guardamos a pen no bolso e fomos jantar com minha mãe, que sempre teve um carinho especial por Baruto. Ela o via como o protetor dos tempos de escola, o cara grandalhão que afastava os valentões com um olhar. Durante o jantar, rimos como antigamente, e minha mãe, com aquele tom meio culpado, pediu desculpas por eu “incomodar” Baruto com essas noitadas. Ele apenas riu, dizendo que gostava, mas que o tempo agora era curto. A conversa fluiu até o sino da igreja marcar as nove da noite.
— Vamos ver o filme? — Baruto perguntou, já se levantando.
— Vamos — respondi, sentindo uma animação quase infantil.
Na sala, pluguei a pen na TV e me sentei ao lado dele. Quando no ecra revelou Sombra do Samurai, meu coração apertou. Era o filme que vi com Yui, numa fase pesada, quando Baruto estava em Coimbra e eu me afogava em saudades. Uma lágrima escapou, e eu a enxuguei rápido, antes que ele notasse. O filme terminou, e Baruto, com um aceno de aprovação, perguntou:
— Muito bom, onde achaste esse?
— Era o preferido da Yui. Vi numa época meio complicada — disse, com um sorriso forçado. — Não te esqueças que sou Aspie.
Ele me olhou com aquele jeito dele, firme e gentil.
— Eu nunca esqueço.
Guardei a pen com cuidado, como se fosse uma relíquia, e desliguei a TV. Minha mãe, já de robe, veio dar boa-noite e subiu. Queria puxar conversa, como fazíamos antes, mas havia uma sombra de hesitação em Baruto, como se ele se sentisse deslocado ali, tão perto de mim, tão longe da vida que construiu.
— Como é o Japão? — ele perguntou, quebrando o silêncio.
— Maravilhoso, mágico — respondi, e me deixei levar.
Contei sobre as pedaladas pelo bairro Ota, onde Yui morava e agora meu primo vivia. Falei da gentileza dos japoneses, do trauma de Takeshi, que vagava como um fantasma à noite até um monge budista o ajudar a encontrar alguma paz. Baruto ouvia, atento, mas os olhos pesavam.
— Anda, vamos dormir, estou exausto — disse ele, por fim.
— Sim — concordei, sem insistir.
No quarto, tomei meus comprimidos em silêncio — um para o autismo, outro para a depressão, outro para o sono. Baruto sabia, mas nunca tocava no assunto, a não ser quando eu tentava fugir da rotina. Ele estava na casa de banho, e eu já me arrumava para deitar quando o ouvi:
— Vai indo pro quarto, já vou.
— Ok — respondi, ajeitando as cobertas.
Era madrugada. Baruto dormia, o rosto relaxado, quase vulnerável. Virei-me na cama e meus olhos encontraram a foto na mesinha: eu e Yui em Sintra, um dia que parecia perfeito. Fechei os olhos, e o sono, finalmente, me levou.
Guardei a pen com cuidado, como se fosse uma relíquia, e desliguei a TV. Minha mãe, já de robe, veio dar boa-noite e subiu. Queria puxar conversa, como fazíamos antes, mas havia uma sombra de hesitação em Baruto, como se ele se sentisse deslocado ali, tão perto de mim, tão longe da vida que construiu.
— Como é o Japão? — ele perguntou, quebrando o silêncio.
— Maravilhoso, mágico — respondi, e me deixei levar.
Contei sobre as pedaladas pelo bairro Ota, onde Yui morava e agora meu primo vivia. Falei da gentileza dos japoneses, do trauma de Takeshi, que vagava como um fantasma à noite até um monge budista o ajudar a encontrar alguma paz. Baruto ouvia, atento, mas os olhos pesavam.
— Anda, vamos dormir, estou exausto — disse ele, por fim.
— Sim — concordei, sem insistir.
No quarto, tomei meus comprimidos em silêncio — um para o autismo, outro para a depressão, outro para o sono. Baruto sabia, mas nunca tocava no assunto, a não ser quando eu tentava fugir da rotina. Ele estava na casa de banho, e eu já me arrumava para deitar quando o ouvi:
— Vai indo pro quarto, já vou.
— Ok — respondi, ajeitando as cobertas.
Era madrugada. Baruto dormia, o rosto relaxado, quase vulnerável. Virei-me na cama e meus olhos encontraram a foto na mesinha: eu e Yui em Sintra, um dia que parecia perfeito. Fechei os olhos, e o sono, finalmente, me levou.

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